“Não vamos casar pela igreja, mas vai ser inesquecível”

A actriz fala abertamente da sua relação com Guillaume Lalung, do sonho de ser mãe e de ter uma quinta no Alentejo. Admite que não gosta de fazer cenas de sexo e que não beija com língua.

“Esta é uma entrevista que vai ser sincera, faço questão que o seja e que mostre conteúdo que nunca tenha contado antes.” É assim que começa a conversa com Rita Pereira.

Ao fim de 13 anos, o que falta perguntar-lhe?

Já perdi a conta às entrevistas e aos assuntos. Acho que até a minha cor preferida me perguntaram, a das cuecas (risos). Se calhar falta questionar como vai ser o amanhã? Mas isso nem eu sei responder.

Começou na novela Saber Amar, 2003, mas foi nos Morangos que se tornou mediática. Mudava algo no seu percurso?

Há 13 anos que ouço “estás na posição em que estás, mas amanhã já não vais estar”. Acredito sempre que isso pode acontecer. Se me perguntarem porque continuo na mesma posição, não sei responder. É uma chapada de luva branca para quem acreditou que eu não pudesse continuar a ser actriz ou a ter fãs. O que mudaria? Nada! Sinto-me uma pessoa tão completa e feliz neste momento, que sei que se alguma coisa tivesse sido diferente, eu não seria quem sou.

Para além do talento, trabalho, dedicação e do foco, o curso de Marketing que tirou não terá ajudado?

Sou muito dedicada, seja no meu trabalho ou fora dele. Trabalho muito, sou concentrada no que faço, luto muito pelos meus objectivos, detesto errar e, acima de tudo, desiludir colegas de trabalho ou seja quem for. Mas isso não faz com que as pessoas gostem mais de mim. Eu sei que a minha continuação neste nível de popularidade, se calhar, 30 por cento se deve ao público.

Também retribui esse carinho…

Sim. Eu não viro a cara a nenhum fã, aliás, sinto-me muito mal quando não consigo tirar uma fotografia com alguém. Quando sou convidada para ir a algum um sitio, fico duas horas em pé a tirar fotografias e faço questão de dizer alguma coisa, saber o nome… porque quero que a pessoa se lembre daquele momento. Quero olhar a pessoa nos olhos.

Quinta no Alentejo

É um modelo para muita gente, partilha muito da sua vida nas redes sociais e no canal do YouTube…

Finalmente encontrei o equilíbrio. Os meus primeiros anos de figura pública foram destrutivos. Chorava horas a fio com o que as pessoas podiam pensar de mim, mas a maturidade deu-me essa sabedoria. Tem a ver com a autoconfiança e saber aceitar que aquilo faz parte e que nada daquilo vai mudar a minha vida. Os meus pais sabem a verdade e os meus amigos também.

Porque foram destrutivos?

Porque os Morangos foram um boom mediático. Na altura ficava revoltada, tenho consciência que era antipática e mal-educada com os jornalistas, e uma grande mostra de maturidade é saber admitir os erros publicamente. Sei que errei, hoje sei distinguir o jornalismo e os jornalistas e, raramente uma notícia me deita abaixo. Pode-me fazer pensar, mas dura dez minutos. Há uns anos ficava dias a chorar.

Quem era a Rita antes de ser a Rita Pereira?

Uma adolescente que sonhava, um dia, ser convidada para dançar num videoclip de uma cantora que adorasse. Queria ir trabalhar para uma agência e que fosse a melhor, gostava de fazer anúncios e criá-los. Queria ter cães e cavalos e isso ainda se mantém. É um sonho que se vai manter para sempre, ter uma quinta com cães e cavalos.

Onde fica esse sonho?

No litoral alentejano. Poderá acontecer porque é um projecto que tenho, que ainda não começou a ser construído fisicamente, mas tem sido construído na minha cabeça ao longo dos anos. Cada vez acredito mais que ele vai acontecer. Não tenho uma data, talvez aos 70 anos. Vejo-me a terminar a vida assim. Quero ter filhos e cães a dar com um pau (risos).

E quantos filhos quer?

Quero ter três.

Já anda a treinar?

Ando a treinar, sim. Mas não com o pensamento de ter já. Há essa pressão de toda a gente. Quase que não queria acabar a novela A Única Mulher, para não sentir mais essa pressão. Eu sabia que, quando terminasse, os meus amigos iriam vir todos, a minha mãe, a Imprensa. “E agora, o filho?” Comecei a ficar, sinceramente, farta. Dava entrevistas sobre tudo e no meio perguntavam-me sempre se queria ser mãe. Já disse que, quando ficar grávida, prometo que não digo só aos três meses ou no meu círculo mais fechado.

Há muita pressão para as mulheres terem filhos?

Sim, há muita pressão. Tem a ver com a idade. Hoje em dia, com esta questão de as mulheres serem livres e independentes, deixaram de engravidar tão cedo. Agora, a pressão começa aos 30, antes era mais cedo. Até as pessoas na rua me perguntam.

Mas para ter três, depois tem de ser tudo seguido…

Claro. Já que engordei, vai tudo de seguida.

Tem receio dessa parte?

Sei que vou ser uma mãe que vai treinar, vou fazer fotos de barriga, não me vou esconder. Mesmo que engorde 30 quilos, não me escondo. Mas vou tentar ser uma mãe em forma.

Como se imagina como mãe?

Não acho que vá ser uma mãe-galinha.

“Vamos casar em dois sítios”

O casamento poderá estar para breve?

Quero casar, mas não tenho nada programado.

A Rita e o Guillaume já falaram em casamento?

Sim. Todos os casais que ficam mais de um ano juntos acabam por falar em casamento. Somos um casal cool, não somos nada tradicionais ao ponto de ter de organizar já, pensar já, a ementa vai ser esta… não sou nada preocupada.

Vai casar pela igreja?

Não vamos casar pela igreja, não tem a ver connosco, não somos pessoas religiosas. Claro que alguns familiares vão ficar tristes, mas vamos fazer algo inesquecível. Mesmo que não seja na igreja.

Terá muitos convidados?

Não sei. Só na altura, quando decidirmos, é que vamos ver.

Onde vão casar?

Vamos casar em dois sítios: em Portugal e/ou Paris ou em Guadalupe (terra do Gui).

Conduziu tractores, pisou uvas, sabe fazer croché

Como foi a sua infância?

Os meus avós paternos são de Castelo Branco e os maternos do Canadá, onde também morei. Sempre tive três avós, porque os pais da minha mãe separaram-se e voltaram a casar-se quando eu ainda não tinha nascido. Sempre tive uma infância muito saudável, ia passar os verões ao Canadá ou a Castelo Branco. Cá era no meio do campo, com galinhas, vacas, ovelhas. Os meus avós faziam criação.

Também matou galinhas?

Não, aliás, não como coelho porque a minha avó deu-me um e passado um mês matou-o para comermos. É algo normal de se fazer, mas… Tenho pena que os meus filhos não tenham esse lado do campo. Os meus avós paternos tinham colheitas, nunca comprei azeite, batatas, tomate, alfaces, era tudo biológico. Tive uma infância super feliz, desde conduzir tractores até pisar uvas. Sei fazer croché por causa da minha avó, e sei cozinhar bem por causa das minhas avós.

Nunca deu trabalho aos seus pais, nem na adolescência?

Não. Não me drogava, nunca fumei um cigarro na vida, detesto. Não saía todos os dias à noite, desde sempre que prefiro ir para casa de amigos e ficar a conversar uma noite inteira, a maquilhar.

Na escola era a melhor?

Não era a melhor, era uma aluna média. Tinha bons e muito bons, excelentes só a Educação Física, Inglês e Português.

Sofria castigos?

Castigos não me lembro, mas levava açoites.

Por falar em educação, com os dois pais e a irmã professores, como olha para o ensino?

A minha mãe trabalha numa associação de crianças órfãs, e hoje em dia, se ela gritar ou falar um bocadinho mais alto com uma daquelas crianças, pode ser mandada embora, acusada de agressão… E isso revolta-me. Lembro-me de antigamente entrar numa sala de aula, e assim que o professor dizia caluda, nós calávamo-nos. Hoje, não acontece. É um desrespeito.

Trabalhou numa pizzaria

Começou a trabalhar cedo?

Sim. Percebi que não ia entrar na faculdade pública. Como não me apetecia fazer o esforço de ter nota para entrar na pública, tive de trabalhar para ir para a privada. E assim foi, paguei a minha carta de condução, o meu carro e universidade.

Onde trabalhou?

Numa pizzaria, trabalhei muito como promotora/hospedeira.

Foi nesses trabalhos que conheceu a Cláudia Vieira?

Sim, conheci a Cláudia, a Soraia Chaves e a Andreia Diniz. Nós as quatro batíamos os castings todos de publicidade. Fui muito feliz nesta altura, aprendi muito e foi graças à publicidade que descobri o meu lado de actriz. Ao longo destes 13 anos, já tenho mais estudos que muitos colegas que andaram no conservatório. Estudei no Brasil, com uma das melhores professoras brasileiras, em Los Angeles…

Sabe o que tem na conta?

Claro que sim, sou controlada. Não sou gastadora. Custa-me. Nunca fui, nem me considero rica. Poderia comprar uma mala de 10 mil euros, mas sei que posso fazer tantas mais coisas com esse valor, que não me deixa só a mim feliz.

Onde gasta?

Prefiro viajar, dar alguma coisa que a minha irmã precise, ajudo os meus pais, pago um jantar a amigos…

Gravar a Luena e morte

Já esqueceu a Luena?

Já esqueci os tiques dela. Mas a Luena está em livro (Um Quarto de Luena, Depois da Morte, o Resto da Vida), as pessoas na rua falam-me muito da Luena. Enquanto não fizer uma nova personagem, as pessoas vão continuar a falar.

Como aguentou?

Foram 23 meses de gravações e houve momentos muito difíceis, principalmente as cenas em que o Júnior estava doente, porque gravei cerca de três a quatro meses a chorar todos os dias. Não me permitia ter força para ir sair com amigos, jantar com o namorado, visitar os meus pais… Consegui porque amei a Luena e o público ajudou-me muito.

Como chorou tanto?

Em 95 por cento das cenas pensei no que estava a acontecer à Luena. Se estava cansada, era mais fácil chorar. É-me mais difícil chorar de manhã do que ao fim do dia. Se não me conseguir concentrar, penso em algo pessoal.

O público concordou com a morte da Luena…

Ficaram tristes e perguntam-me porque é que eu deixei? Não sou eu que escolho, nem escrevo a novela.

Foi difícil gravar a morte?

A última cena com a Marta Melro foi muito difícil. Nós não podíamos começar a cena a chorar, e já estávamos em lágrimas.

Como foi ver a cena?

Já me tinha visto morta em Fascínios. O meu pai diz que prefere ver-me aos beijos do que morta. Eu vejo bem porque estou a olhar para o lado técnico.

“Odeio cenas de amor”

Fez cenas mais quentes como Luena…

Odeio fazer cenas de amor. Não fico à vontade. Não sou daquelas pessoas que não podem tocar aqui ou ali, deixo o colega à vontade. O Rodrigo [Menezes] sabia, fazíamos aquilo como quem está a passar um texto. Já tínhamos sido namorados tantas vezes. A única coisa que disse ao Ângelo Torres foi para não me beijar com língua. Isso não aceito. Defendo a 200 por cento beijos técnicos. Não mostro as mamas numa cena, se calhar um dia em cinema, ou numa cena em que veja que vale a pena, que faça sentido. Adoro as minhas mamas (risos), não tenho problemas com elas. Não tenho silicone, como dizem. Por enquanto, gosto; depois de ser mãe, talvez não…

Mas no caso de deixar de gostar, pode solucionar…

Sim. Se achar que o meu peito não está como gosto, coloco silicone. Aí, sim, já podiam dizer que tenho silicone. Até fico orgulhosa que o digam, é sinal de que está tudo no sítio.

“Cada um lida à sua maneira com a morte”

Como se lida com as perdas?

Aprendi e vejo que cada um lida à sua maneira. Sou prática e terra-a-terra demais, nesse aspecto, sei que a pessoa não vai voltar, não vale a pena dizer que queremos ir atrás, porque não vai acontecer, como não vale a pena dizer que o Mundo acabou, porque não acabou e há outras pessoas que precisam de nós e podemos ser felizes com outras pessoas. Não estou a falar de relações amorosas, temos a família. Sempre fui muito assim, sofri à minha maneira, sofri muito calada. Perguntavam-me como estava e nunca partilhei, nunca quis ir a um psicólogo, disseram-me várias vezes para ir… A minha maneira de conviver com as perdas foi falar com pessoas que conhecia que já tinham passado por isso. Não vale a pena aconselhar… Podemos dar uma força.

Quer trabalhar na Globo

Rita ainda tem sonhos por realizar. Trabalhar no Brasil é um deles. “É um dos meus sonhos. Gostava muito de ir para a Globo. Não quer dizer que não consiga, mas não está nas minhas mãos. Ao contrário do que se pensa, não é por sermos conhecidos e cá andarmos há muito anos que, se quisermos um papel num qualquer filme ou numa qualquer novela, conseguimos. É preciso ter sorte e que me deixem fazer um teste”, sublinha.